domingo, 30 de novembro de 2008

Beatriz Sarlo - O Sonho Acordado

Por Joel haas

Zapping

Beatriz Sarlo incia este capítulo do livro o Sonho Acordado, fazendo uma representação escrita de cinco minutos assistindo televisão, e zapeando; ou dez minutos, ou mesmo um minuto. Nestas breves passagens, já podemos notar a profundidade com que ela trata o assunto. Logo após ela “decreta” quatro regras básicas da “república” do zapping. Primeira Lei: produzir a maior acumulação possível de imagens de alto impacto por unidade de tempo e, paradoxalmente, baixa quantidade de informação. Este ponto-de-vista ácido, é entendido se acompanharmos o texto.

Para Sarlo, o zapping é uma construção frenética de conteúdo inútil, baseado na retroleitura e reiteração do que acontece na própia televisão. Isso cria um ambiente onde as produções – de nível nacional e/ou mundial – apresentem o menor risco possível. É “compreensível” até certo ponto esta atitude por dois motivos básicos: altíssimos custos – criando poucas oportunidades para errar – e manutenção de um certo status quo, sendo mais “seguro” para quem alcança este status.

Outro fator importantíssimo que a autora explicita com maestria é o de o meio ser mais veloz do que aquilo que ele mesmo transmite. A incoerência dentro da coerência do discurso televisivo. Porém, estando na era zapping, o switcher encontra-se na mão do telespectador, que faz sua escolha sentado no sofá de casa. Isso tira um pouco – dependendo da situação muito – do poder da mídia em “bitolar” os receptores.

Perda do Silêncio

Silêncio e planos mais longos povoam nossa lembrança, de tempos atrás, quando fala-se em televisão. O programa CQC – da TV Bandeirantes – é o exemplo mais recente disso. Jogos frenéticos de câmera, trilha sonora praticamente ininterrupta, muitos jornalistas envolvidos, intervalos aos comerciais pouco freqüentes, organização semanal de quadros são algumas das características. Fora o humor e os videografismos – desenhos que brincam com os entrevistadores e entrevistados – que deixam pouco tempo para a reflexão a este turbilhão de informações e imagens recebidas.

A caixa reprodutora de imagens é uma máquina de felicidade, onde a desordem tem um sentido de satisfação e contentamento: agora estou informado. Como no caso do futebol; dezenas de programas – diários ou semanais – discutem invariavelmente sempre o mesmo assunto: futebol! As variáveis são diversas, muitas delas somente possíves com o recurso televisivo. Caso das análise de impedimentos realizadas incansavelmente pela grande maioria.

Até a improvisação já responde a serialidade – na lógica do pouco risco. Sarlo coloca que no início, quando havia a necessidade incondicional do “ao vivo”, a improvisação era um ponto que fugia da lógica e quebrava um pouco o “encanto” midiático proporcionado pelo modo de produção televisivo. Hoje, em diversos programas humorísticos observamos a improvisação amalgamada ao roteiro, imbuída de causar um certo frisson nos telespectadores.

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